restaurante delicado (1)
Sentada à mesa do restaurante, a mulher me espera numa pintura triste. Sobre o seu rosto, um sorriso docemente compassivo. Para além da vidraça, apenas noite funda, breu sólido — como se o mundo do lado de lá ainda estivesse em branco. Depois dos cumprimentos, e enquanto me distraio com o cardápio, ela revela que está envolvida há um tempo em um (não é religião) ritual xamânico. Diz que passou por provas espirituais, que cavou uma sepultura e se enterrou nela. Diz: “Uma coisa muito bonita”. Diz: “A gente morre, e depois nasce de novo, recebe outro nome”. Paraliso um aceno para o garçom, a repercussão dos sentidos interrompida. “Agora me chamo Shivani, e ela não te ama mais”. Balbucio algum raciocínio trôpego, apelo para a nossa vida sustentável: e o consumo consciente, a causa ambiental, nossa vida verde na cidade cinza? Edith confessa: “Esta causa nunca foi minha, e talvez nem seja sua. Talvez seja algo que apenas se adapte melhor ao seu temperamento”. Histérico, culpo tardiamente a família dela: “Para eles, vivo à custa da herança do seu pai-surpresa; nunca quis esse seu dinheiro, nunca quis que me sustentasse”. E ela: “Não tem a ver com eles”. No que eu: “Nunca aceitaram meu ateísmo, nunca aceitaram meu ensino superior incompleto”. Aí ela: “As pessoas só aceitam algo quando há o afeto”. E eu, mímico: “O que isso quer dizer? O que você quis dizer com isso, Edith?”. Vencido, finalizo a parte da voz (o sentimento solto num descampado ermo). Silenciosa, ela se levanta, recolhe a cadeira, e a cadeira parece deslizar impregnada da serenidade dela. Depois, leva as mãos espalmadas juntas à altura do peito, numa reverência. Diz: “Gratidão”. Abandona, sem remorso ou hesitação, o restaurante delicado. No sistema de som, Caetano canta em falsete Tu me acostumbraste, cinicamente.