a palavra tardia

apenas outro sítio de palavra impressa

“o que fizemos dela? está quebrada?”

Quando foi que desaprendemos a manusear nossa alegria? (A alegria ainda existe em nós: às vezes a usamos com um cachorro na rua, ou com uma criança de colo na mesa ao lado). Agora mesmo, enquanto ainda estou lá, contemplando a criança de colo na mesa ao lado, você acabou de me olhar pela fresta do banheiro dias depois, sondando-me; disfarço qualquer movimentação de sentimento subcutâneo, sentimento raspando pele embaixo. Então você retoma suas abluções costumeiras: em pé, diante da pia e espelho, penteando vagamente os cabelos, inclinando-se para enxaguar metodicamente as pálpebras, depois pinçando dispersamente sobrancelha, axila. Seu corpo translúcido que envelhece distraído. Entristeço com a sua dor tépida, companheira. Sentado em nossa cama, que é de onde te espreito, trago sua dor comigo, no bolso; apalpo-lhe o tecido crespo sempre que ameaço ser feliz. Temos idade, você diz. Não sabemos reter renda, não sabemos educar nossa filha triste. (Lembra quando dizíamos: mas, para que filhos? Ter filhos é passar a dor adiante) (Mentíamos de paixão ao formular esse argumento?) (Não devíamos ter nos mentido assim). Agora só sabemos produzir silêncio no lugar das palavras duras. Falhamos. Nunca buscamos o amor: queríamos apenas abrigo para as nossas solidões. Adotamos um teto para elas — essas crianças órfãs que teimaram em não crescer sob nossa epiderme.  Falhamos. Pousamos nossos corpos na apatia do leito, feito fetos em repouso prematuro — filhotes desmamados. Coitados de nós. Penamos com esse brinquedo chamado vida. Pensamos e não dizemos: “O que fizemos dela? Está quebrada?” Antes que eu saia para o meu rotineiro caminhar a esmo, nos aproximamos, incertos. Te beijo a testa crispada. Abraçados (como se abraçássemos nosso desespero) não nos olhamos nos olhos, e só dizemos nada.

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“O nascimento de uma alma é coisa demorada” (poema)

Existem:
Sucessão de dores
Rituais de povos
Estátuas, artefatos e letras no papel.

A recordação do mundo
Transmitida àqueles
Que ainda não adquiriram existência.
Obrigados a uma vida anterior,
Responsáveis por precipitá-la.

Isto é este que escreve:
Corpo maleável
Abrigando
Caroço.
Mônada.
Semente de silêncio.
Nelas, as pessoas,
Está localizada a nascente do silêncio.

No ventre da mulher
A gestação do mundo.
No ventre do feto
A gestação do silêncio.

Nasci.
Existo.
Passam-me a dor adiante.
Obrigo-me ao mundo.

Tudo é permitido:
Este é o perigo.

Sou o que escreve:
“Existem:”

Para me sentir mais próximo de mim
Invento-me.

A alma se alastra,
Expulsando silêncio
Conforme se surpreende
E não compreende.

Nunca compreenderá.

Em mim
O espanto; depois,
A reação a ele:
Palavras que narro.

Substituo as dores
Por palavras
Do mesmo modo que um dia
Serei substituído pela próxima leva de narradores.

Nó.
Alguns nós
Dividimos a dor
Sentados à mesa.

Falamos
Devoramos
Sofremos.

Não saberemos
Calar este silêncio:
Sofrer também será um jeito
De distraí-lo.

Sofreremos então.

Não nos compreenderemos.
Inventaremos memórias
Que não vão nos consolar.

Às vezes
Aceitaremos paisagens
Na tentativa de desafiar
Este silêncio que nos habita.

E voltaremos a sofrer.

Nunca vamos nos comunicar.
Nunca irei te existir.

O amor será tentativa
De desaprender o outro
E escapar daqui.
Nunca conseguiremos.

Enquanto isso, fazemos poemas.